sexta-feira, 3 de junho de 2011

Louvação de Aniversário




É bem difícil concentrar neste poema todo o significado desta hora. Desta data.
A verdade é que sempre sonhei com a tua madureza. Afinal, os verdadeiros gosto e cheiro estão quando a fruta matura. Esperei por isto. E por isto te "criei", de certo modo, assim como que por predestinação chegamos aqui, criando-nos um ao outro. Enfim, chegamos, somos, ambos, quarenta vezes mais do que tudo que já vivemos juntos.


Para uma silenciosa onda
Meu olhar atento
Espera mirar-te negro.
Dons de sereno homem.
Sutilezas.
Requintes.
O ato rebelde de um escritor menino.
Teu sonho, rapaz!
Teu sonho.
Teus escritos reinam
Em lendas absolutas.
Buscam o mito.
A rainha mãe
Acende a vela
Sobre seu filho.
O fogo atiça a loucura científica.
Âncora.
Destino cruel.
Ser o primeiro.
Ser solitário.
O único pensamento...
Atordoado, chora.
Ficas sem rumo.
Há tristeza.
Teu caminho,
Teus passos incertos,
Teus desatinos,
Tua flor cega.
Fostes batizado,
Rompido a ferro.
Agora vai.
Vai ser menino homem.
Vai ser aquilo que te foi ordenado.
Teu império bruto
Te chama.
Para te dar,
Inventei um cocar de estrelas,
Uma lança,
Um punhal de dedos,
Um manto amarelo,
Uma flor de Deus.
A nossa oração diária
Guardei para te louvar.

Feliz aniversário de quarenta anos, meu amor. Te amo.

Sílvia Cristina.

domingo, 22 de maio de 2011

O grande sertão



Perco a beatitude de menino santo, inocente.
O grande sertão abre meu brasileiro ouro.
A língua o diabo bento brasilifica:
O arco fende a letra em nome de Maria.
A arte batiza minha tropical mistura
Pacientemente costurada e cozida.



Poema: Marcus Minuzzi
Fotos: Sílvia Goulart e Marcus Minuzzi

sábado, 14 de maio de 2011

Beijar os pés



Boca de estrelas
Não tem dentes.
Apenas a língua guturante
Que sonha
Sem vacilar.
Que saliva
Ao te beijar os pés.


Poema: Sílvia Goulart

domingo, 1 de maio de 2011

O teu pictórico intento


A forte ama negra
Benze o meu bico de pássaro.
Um filho artístico
Reborda o mito do boi guerreiro
Que salva o planeta.
Ó mãe bela que genitalmente pinto
E lembro,
Estou em teu pictórico intento,
Como teu artista máximo,
A postura exata
A ave me ensina.

Poema e foto: Marcus Minuzzi
Pinturas: Sílvia Goulart
Modelo da foto: Sílvia Goulart

sábado, 23 de abril de 2011

O amor é o bordado que ouso


Bordo enquanto espero o ovo chocar.
Rito sagrado da menstruação.
Há um país inteiro artisticamente guardado.
O povo é sexualmente pintado como música.
Há um lento sussurar em meu ouvido,
Como tragédia da miscigenação.
O amor é o bordado que ouso.

Poema e foto:
Marcus Minuzzi
Pintura: Sílvia Goulart

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Corpo machucado de Liz


Sombras, pedras,
Luz de liz.
Raios novos
De liz.
Traduz a aura
Triste de liz.
Lança retos
E agudos de liz.
Evapora verde encantado
E estúpido odor de liz.
Espalha monstruoso grito
De liz.
Salpica com ervas
De cheiro.
O corpo machucado
De Liz.


Poema e pintura:
Sílvia Goulart
Foto: Marcus Minuzzi

domingo, 27 de março de 2011

Brigam Cristo e Dionísio pela fama de dominar o país


A minha poesia ritualiza o fenômeno do medo:
Rendo graças a uma força abissal.
A briga entre o poder crístico
E o poder de Dionísio
Em mim se processa.
A dor faz a ema gritar encantadoramente,
E fabrica o terno gozo.
A rua não é mais beco.
Brigam Cristo e Dionísio
Pela fama de dominar o país.


Poema e foto:
Marcus Minuzzi
Pintura: Sílvia Goulart

terça-feira, 22 de março de 2011

O perdão para Anibel


A voz quase rouca alucina
O mantra da exclamação contida
Em teu povo anterior.
Quase rocha,
Quase encarnação bendita de tua luz.
A inteira pátria em teu gesto materno.
As idas e findas andanças...
Mescla em teu diário de pobrezas,
Sonhos e fracassos espirituais.
A ânsia por estar em novo território.
A busca da perfeição do ser.
Senhor, me conceda o perdão.
Porque pequei contra tudo
O que bordava o meu caminho inigualável,
Duro, gelado como vento minuano:
Não pousei na relva abençoada que me destes.
Abortei meus dias claros.
Manchei minhas esperanças.
Há em mim um forte impulso, senhor.
Quero ser um átomo cósmico.
Quero ser um arcanjo com vestes brancas.
Quero amar o príncipe da pureza.
Rastejo-me aos teus pés.
Lava-me os cabelos
E perdoa-me as fraquezas da alma feminina.
Impurezas carnais, leitos enxovalhados,
Mortes veladas.
Imploro pelo caminho aberto
Impregnado pelo perfume
Das magnólias na manhãzinha.
Juro, senhor.
Prosseguirei no compasso,
Na cadência,
No ritmo amoroso dos teus tambores.
De lá, ouvirás minha voz.
Verás que bela sou a te cantar
As palavras molhadas em riachos.
Há, meu senhor, dentro do meu ser,
Uma serpente de sabedoria.
Há também uma amazônica
E fértil extensão de florestas.
Há um jequitibá em flor.
Cipó,
Citronela cheirosa de outubro,
Ocimum basilicum.
Plantei o pedaço mais verde em minha alma.
Há também uma coroa de espinhos,
Que me acompanha desde o primeiro dia,
Que me sangra,
Mas que conservo por conta
Das minhas penitências terrestres.
Aceita antes de amanhecer
O meu verso singelo,
A minha doação pela escrita,
O meu encanto de dama,
A porção de beijo e bico materno.
Aceita meu pedaço de carne,
Minhas chagas.
Em nome de tudo que é sacro.
Em nome de tudo que é perdão.



Requinte de sinhá

Bebi o vinho.
Pude ser,
Sentir o efeito da riqueza
Em minhas mãos.
Traços finos,
Requinte de sinhá.
Está em mim esta rainha.
Me visita hoje.
Suas vestes inspiram
Uma grandeza que assombra.
Está em mim.
O poder me assusta.
A nobreza me cabe hoje.
Só espero que o dia amanheça
E traga meu reinado.




Poemas e pinturas:
Sílvia Goulart
Fotos: Marcus Minuzzi

domingo, 20 de março de 2011

A profecia



Serenai vossos desejos
Aprendendo a rezar em um só coro.
Estamos em festa.
A casa é promessa.
A onda é apascentadora.
Lírios serão colhidos.
Bicos dourados, sons da floresta.
Espelhos d’água aguardam seu triunfo.
A dama de honra espera o cavalheiro.
A joia cristalina está guardada na face do anjo.
Rostos americanos assombram o céu do Brasil.
A nova pátria acorda mesclada de ciência e paz.
Serenai vossas fronteiras.
A negra amamenta Nova York.
As torres estão nuas,
O povo será novamente batizado.
Glória aos homens de modos serenos.
Glória aos homens nus e sem sapatos.
Glória às mulheres mulatas, pretas
E mestiças de pouca lábia.
De pouco viço, mal polidas, encantadas.


Poema e pintura: Sílvia Goulart
Foto: Marcus Minuzzi

segunda-feira, 7 de março de 2011

O coro das musas


Ó mina partida de meu país.
Lembro de leituras que veneramos,
Tua mãe e eu.
Lembro do meu brincar com letras e
A vegetação.
A minha beleza tirada da terra
E teu pai capinando a terra.
O teu nome acendendo o coro das musas.


Texto e foto: Marcus Minuzzi
Pintura: Sílvia Goulart

Em homenagem aos 14 anos de Adélia Rosa Goulart Minuzzi

sábado, 5 de março de 2011

Girar é tornar a pobreza um espaço olímpico



A ciranda ordena a lembrança da forma circular.

O ouro que descobrimos artisticamente harmoniza o anseio por amor infinito com a violência e a pobreza da vida cotidiana.

Girar é tornar a pobreza um espaço olímpico, ou seja, divino. A representação do ouro artístico brasileiro está na cultura popular, especialmente no Carnaval.

O mito brasileiro tira da espacialidade tropical uma alegria que torna seu tempo molemente aquoso.



Texto e foto:
Marcus Minuzzi
Pintura em camiseta: Sílvia Goulart



domingo, 20 de fevereiro de 2011

Droga e São Momentinho



Por certo, escrevi a crônica da droga que é o meu amado São Momentinho.

O São Momentinho é o momento certo, agudo e esperançoso. O único lugar em que podemos efetivamente ser felizes.

O São Momentinho é o pequeniníssimo. E esse momento é o da palavra, o grande momento da palavra certa.

Invariavelmente, esta palavra se dirige a uma Grande Mãe e, por consequência, às mulheres de um modo geral.

De modo mais certeiro, àquela mulher que devotamos nosso amor de menino.

A palavra é a droga da humanidade, o grande repositório da salvação. Droga, portanto, no sentido claro: de rejeição ao medo de estar salvo.

O ópio não é uma droga, é uma porcaria. Já futebol é uma droga certa. Só se vai uma vez por semana ao estádio, como numa missa, oferecer seu próprio corpo: estou aqui Pai, e não tenho medo dos terríveis tiros que me desferem o trem mundano do dia-a-dia.



A roda da bola, no estádio, nos descarrega de um ciclo infernal. Paradoxalmente, contraria a própria palavra, mas de maneira amuada, sertanêjica, esperando o momento da hora certa.

É só porque gosta de futebol que o povo lê jornal e, aos poucos, vai se entregando ao gosto de se estragar, ao vício de morrer sublime - n'A Palavra.

Droga é não ter medo da rosa da vida e da morte. Droga é ser Jesus Cristo. Droga é Cora Coralina.

Há um quê de Rosa & Sertão neste mito: a felicidade milagrosa de um momento. João Guimarães Rosa, por certo, fendia a palavra. A fazia luzir. Não fosse o português uma língua tão obscura, e já teríamos fundado um novo planeta - o que, por certo, vem fazendo muita falta.

Droga é a falta de pedra na vida, muita pedra. A coisa tão certa, de casamento, com o capeta. Droga é a brotação da seiva mágica. A mãe-dona-benta.

Rosa porfiou o regionalismo de Minas, casado com uma mãe aquífera rica em mananciais. Ela é uma bruta, essa mãe. Por isso, Rosa bateu cabeça e nos abençoou com Grande Sertão : Veredas.

A besta leva medo embora, medo da angústia de Carlos (Drummond). Droga é retirar dos olhos uma venda.

Porém, muito mais que isso, é retirar os próprios olhos, qual Édipo, depois de reconhecer, em si, o medo do demônio. É isso que acaba com a literatura má, e redeposita nossos votos na festa, na água santa de uma boa festa.

Droga é alimentar o cotidiano com a minúcia de pequenos prazeres entre a pedreira representada pela falta de encanto na relação em que sempre o homem endemonhou a mulher, endemonhando o sertão mesmo.



Ó santa pedra. A pedra é aliança. A pedra é amor. Em poesia, o ato de "pedrar" é o ato de descaroçar o alimento. Como diz Gilberto Freyre, em Casa Grande & Senzala, a ama de leite encarregava-se de amolecer o alimento pro menino.

Há uma preguiça gostosa na fala do sertanejo goiano e mineiro que deveria encantar a todos.

Amas de leite, segundo Gilberto Freyre, amoleciam o falar, adocicando-o com a voz de bebê - note-se o bico que se faz com a boca quando usamos o "bê": a antiga ema canta abrindo o mito.

Ema, animal do Cerrado. Ela enamora-se onde há encanto com a língua. Pode a moça entregar-se.

A fala ovariana estimula o gosto por poemas em parceria com musas guerreiras. O muso anhanguera pode entregar-se ao seio.

Gosto da sonoridade amuada desse moço anhanguera. Ele ali, aliando em si pedra e poesia. Soma os muitos medos edipianos, do mênstruo ao incesto.

É amoroso o modo como a massa onírica antiga risca a elegia ao bom bandeirante.

Droga, repito, é Cora Coralina, que is not dead, como já sei que andaram dizendo por aí (que "Cora Coralina is dead", pichado, num muro). A morte não existe. Cora Coralina, sim.

E assim o digo com a ponta de meu dedo, que fuçou as entranhas de todos os nossos medos, até o mais antigo, o medo de ser um homem grosso, e de legar isso aos nossos filhos.





Texto e fotos:
Marcus Minuzzi
Pinturas: Sílvia Goulart
Moça da foto: Juliana Goulart Boesche

O beijo de moça ritualizará o povo.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A prece por Maria



Súbita rainha.
Maria de Deus,
Maria das dores,
Maria das honras,
Maria das mães.
Maria das graças,
Maria das pretas,
Maria dos famintos.
Marias somos.
De todos os filhos e filhas,
De todos os calvários,
De todos os ventres.
Livrai-nos, senhor,
De todos os maus agouros.
De toda sorte de padecimento junto ao pé do Criador.
Acaricia meu pequenino rosto de menina,
Veja onde a sua graça me tocou.

Mariazinhas...
Enfeitadas de graças,
Enfeitadas de carne,
Enfeitadas de flor.
Enfeitadas de espinhos,
Enfeitadas de cruz,
Enfeitadas de dor.
A hora do amor,
A hora profunda da dor...
Filhos pari,
Amores perdi.
Meu corpo secou.
Maria, levanta,
A cruzada apenas começou.
Maria da força,
Maria da caça.
Maria, acorda.
Tua força,
Teu pulso leviano,
Tua âncora sem cor.
O teu nome, Maria,
Foi teu deus que ordenou.
Não fuja, Maria, da trincheira.
Reserva, Maria, a tua glória final.
Em nome do pai,
Teu parceiro encantado.
Em nome do filho,
Teu rebento encarnado.
Em nome das rosas
Em teu útero geradas.

Amém.


Poema e pintura:
Sílvia Goulart
Foto: Marcus Minuzzi

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Iemanjá sabe meu nome


Iemanjá sabe meu nome.
Transfigura minha alma.
Ó rainha do mar,
Com quantos feitiços
Me tocas os pés?
Rainha mãe das mulheres,
Incendeia meu terreiro,
Escuta meu baobá,
Ofertado em largos braços,
Fincados sobre raízes sinuosas
Que medram nos sulcos da floresta
Nativa de onde eu vim.

Poema e pintura: Sílvia Goulart
Foto: Marcus Minuzzi



O novo tempo




A morte do Exu
Por meu índio belo
E merecedor
De todas as glórias
Do Olimpo
Faz de meu dionisíaco tempo
A luta por olímpicas vitórias.
O Brasil fecunda em mim
Seu novo mito.

Poema e foto: Marcus Minuzzi

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Seres poéticos



Esvazio sons,
Ecos de Deus.
Semeio circulares
Sementes.
Onde passo
Fósseis de plantas
Virgens se refazem
Em um só húmus.
Plantas alimentam
Seres poéticos.


Poema: Sílvia Goulart
Foto: Marcus Minuzzi

A conta coletora coletiva